Dor no ombro é uma das queixas mais comuns tanto no consultório quanto na rotina de quem pratica atividade física. O problema é que o ombro é uma articulação complexa, altamente móvel e dependente de controle fino entre várias estruturas. Por isso, diferentes lesões podem gerar sintomas semelhantes, o que torna o diagnóstico um desafio quando se observa apenas a dor de forma isolada. A lesão SLAP entra exatamente nesse cenário de confusão clínica.
Muitas pessoas convivem com dor no ombro por meses sem saber ao certo o que está acontecendo. Em alguns casos, recebem diagnósticos genéricos, como “inflamação”, “tendinite” ou “fraqueza muscular”, enquanto os sintomas persistem. Entender o que caracteriza a lesão SLAP, como ela se manifesta e, principalmente, como diferenciá-la de outras dores no ombro é essencial para evitar tratamentos ineficazes e cronificação do quadro.
O que é a lesão SLAP e por que ela acontece
A lesão SLAP envolve o lábio glenoidal superior do ombro, uma estrutura fibrocartilaginosa que circunda a cavidade onde a cabeça do úmero se articula. Esse lábio tem a função de aumentar a estabilidade da articulação e servir como ponto de ancoragem para o tendão da cabeça longa do bíceps. O termo SLAP vem do inglês Superior Labrum Anterior to Posterior, descrevendo exatamente a região acometida.
Essa lesão pode surgir tanto por trauma direto quanto por sobrecarga repetitiva. Quedas com o braço estendido, movimentos bruscos acima da cabeça ou tração súbita do braço são mecanismos clássicos. No entanto, no dia a dia do consultório, é muito comum encontrar lesões SLAP associadas a uso repetitivo do ombro em padrões inadequados, especialmente em esportes de arremesso, musculação mal orientada ou atividades ocupacionais com elevação frequente dos braços.
Com o tempo, a combinação entre sobrecarga, falta de controle escapular e instabilidade funcional favorece o desgaste do lábio glenoidal. O problema é que essa estrutura não possui grande capacidade de cicatrização espontânea, o que explica por que muitos pacientes relatam sintomas persistentes ou intermitentes ao longo dos meses.
Por que a lesão SLAP confunde tanto com outras dores no ombro
Um dos principais desafios da lesão SLAP é que seus sintomas raramente são exclusivos. Dor profunda no ombro, sensação de desconforto ao elevar o braço, perda de força e dificuldade em atividades acima da cabeça também estão presentes em quadros como tendinopatias do manguito rotador, bursite subacromial e até cervicalgias referidas.
Além disso, a dor da lesão SLAP nem sempre é constante. Muitas pessoas relatam que o ombro dói apenas em movimentos específicos, como alcançar algo atrás do corpo, realizar rotação externa com carga ou sustentar peso com o braço elevado. Essa variabilidade faz com que o problema seja subestimado ou confundido com “instabilidade” ou “fraqueza”.
Outro fator que aumenta a confusão é que a lesão SLAP frequentemente coexistem com outras alterações. Não é raro encontrar, no mesmo ombro, sinais de sobrecarga do manguito rotador, alterações escapulares e irritação do tendão do bíceps. Quando tudo dói um pouco, identificar a estrutura que realmente sustenta o problema exige uma análise mais cuidadosa do movimento e da história do sintoma.
Padrões de dor mais comuns na lesão SLAP
Embora não exista um sintoma único que confirme a lesão SLAP, alguns padrões são mais sugestivos. A dor costuma ser profunda, difícil de apontar com o dedo, e localizada na parte anterior ou superior do ombro. Diferente de dores mais superficiais, o paciente sente como se o problema estivesse “dentro da articulação”.
Outro sinal comum é a dor associada a estalos, cliques ou sensação de instabilidade durante o movimento. Esses estalos nem sempre são audíveis, mas muitas vezes percebidos internamente, especialmente ao rodar o braço ou ao passar de uma posição de repouso para esforço. Em alguns casos, há sensação de perda momentânea de força ou insegurança ao sustentar carga.
Atividades como arremessar, nadar, treinar membros superiores ou até dormir sobre o ombro afetado podem agravar os sintomas. Ainda assim, a intensidade da dor varia bastante, o que faz com que muitas pessoas convivam com o problema por longos períodos antes de buscar ajuda especializada.
Diferenças entre lesão SLAP e outras condições comuns
Diferenciar a lesão SLAP de outras dores no ombro exige atenção a detalhes que vão além da simples presença de dor. Nas tendinopatias do manguito rotador, por exemplo, a dor costuma ser mais localizada, piora progressivamente com esforço e frequentemente está associada à perda de força em movimentos específicos, como elevação lateral do braço.
Na bursite subacromial, a dor tende a ser mais superficial e relacionada ao atrito durante a elevação do braço, especialmente entre determinados ângulos. Já em dores de origem cervical, o desconforto no ombro pode vir acompanhado de irradiação para o braço, formigamento ou alterações de sensibilidade, o que não é característico da lesão SLAP.
No caso da lesão SLAP, o que chama atenção é a combinação entre dor profunda, sensação de instabilidade, estalos articulares e piora em movimentos específicos que exigem controle fino do ombro. Nenhum desses sinais isoladamente fecha diagnóstico, mas o conjunto ajuda a direcionar a investigação.
Quando a dor no ombro merece investigação mais detalhada
Nem toda dor no ombro exige exames complexos, mas alguns sinais indicam a necessidade de uma avaliação mais aprofundada. Persistência dos sintomas por semanas ou meses, piora progressiva apesar de repouso ou tratamentos genéricos e limitação funcional são pontos que não devem ser ignorados.
Antes de organizar os principais sinais de atenção, é importante reforçar que o contexto funcional importa mais do que o exame isolado. Saber quando a dor aparece, quais movimentos provocam desconforto e como o corpo se organiza para evitar a dor traz informações valiosas para diferenciar uma lesão SLAP de outros quadros.
Sinais que ajudam a diferenciar a lesão SLAP de outras dores
A observação clínica cuidadosa costuma revelar padrões que ajudam a orientar o diagnóstico. Esses sinais não substituem avaliação profissional, mas funcionam como critérios importantes para suspeita da lesão.
- Dor profunda no ombro, difícil de localizar superficialmente
• Desconforto associado a estalos ou sensação de instabilidade articular
• Dor ao realizar movimentos acima da cabeça ou atrás do corpo
• Sensação de perda de força sem dor muscular evidente
• Persistência dos sintomas mesmo com repouso ou tratamentos genéricos
• Histórico de sobrecarga repetitiva ou trauma envolvendo o braço elevado
Esses sinais, quando analisados em conjunto, ajudam a diferenciar a lesão SLAP de dores mais comuns e superficiais do ombro, direcionando a conduta de forma mais precisa.
A importância da avaliação funcional no diagnóstico
Exames de imagem, como a ressonância magnética, podem auxiliar na identificação da lesão SLAP, mas raramente devem ser o primeiro e único critério diagnóstico. Muitas pessoas apresentam alterações no lábio glenoidal sem qualquer sintoma, enquanto outras sentem dor significativa sem alterações evidentes nos exames.
Por isso, a avaliação funcional é decisiva. Observar como o ombro se move, como a escápula participa do gesto, como o tronco contribui para a estabilidade e quais movimentos reproduzem os sintomas permite entender se o problema está realmente no lábio glenoidal ou se ele é consequência de uma disfunção maior no sistema de movimento.
No Instituto Reaction, essa análise vai além da articulação isolada. O ombro é visto como parte de uma cadeia funcional que envolve coluna, escápula, tronco e até o quadril. Muitas vezes, corrigir padrões de movimento e reorganizar a carga reduz significativamente os sintomas, mesmo em casos com diagnóstico de lesão SLAP confirmado por imagem.
Entender como diferenciar os sintomas da lesão SLAP de outras dores no ombro evita frustrações e intervenções desnecessárias. Quando a abordagem considera o movimento, a história do paciente e a função real do ombro no dia a dia, o caminho para recuperação se torna mais claro.
Se a dor no ombro persiste, vem acompanhada de estalos ou sensação de instabilidade e interfere na sua rotina ou treino, buscar uma avaliação especializada pode ser o passo decisivo para recuperar segurança, eficiência e confiança nos movimentos.



